19.5.10

A viagem do elefante

A viagem do elefante é mais uma obra prima de José Saramago. O livro foi escrito tendo como base a história real, ocorrida no século XVI, de uma viagem planejada e implementada para levar um elefante de Lisboa a Viena; e detalha profundamente, em uma mistura de realidade e ficção, o deslocamento do pobre quadrúpede desde o ponto de partida até seu destino final.

É de se pensar qual o nível de relevância que uma história assim pode trazer para o leitor: o livro não se trata de guerras, de conluios, de disputas territoriais, de amores proibidos. Teoricamente e sob uma análise puramente simplista, é de se pensar que A viagem do elefante tem muito pouco para oferecer a quem se lê. Entretanto, se partimos do pressuposto de que Saramago tem o poder que poucos tem para descrever coisas e fatos, é possível crer que até um livro seu sobre uma xícara de chá poderia fazer com que o leitor mergulhasse de cabeça em suas páginas.

E é exatamente assim que nos sentimos com esse livro. Em A viagem do elefante, o autor mistura fatos reais e desenvolve relatos imaginários criando assim uma história repleta de humor, de comentários sarcárticos e suaves pitadas de ironia - típicos de Saramago -, e, por que não dizer?, de passagens emotivas.

A história da viagem tem início quando o rei Juan III oferece o elefante Salómon como um presente para seu primo Maximiliano de Aústria. Em suas páginas o leitor pode desfrutar das estratégias da guarda portuguesa destacada para acompanhar Salómon - e seu cornaca Subho, ressaltando que cornaca é quem cuida do elefante - e também das escolhas táticas da guarda austríaca para seguir a viagem com o quadrúpede até seu destino final.

Como traço típico do texto de Saramago, mas além do que parece ser uma simples viagem de Lisboa a Viena (ainda que a principal mercadoria a ser levada seja um elefante indiano), o livro pincela em suas estrelinhas como, desde épocas tão remotas, já existia e se explorava o conceito do poder, da disputa pelo poder, das mostras de quem é mais forte, das estratégias políticas e das volteios para se obter algo e ficar livre do que não se quer - ainda que o que se queira obter seja a simpatia de um rei vizinho devido à interesses e alianças políticas e que aquilo do qual quiera se livrar seja um elefante.

A parte de tudo isso, Saramago tem um estilo de escrita que me encanta: sem parágrafos, sem letras maiúsculas, uma originalidade e uma ousadia que não se vê muito em jovens escritores. Pode ser, pode ser que em determinados momentos o texto fique cansativo, mas se recupera em seguida e o leitor pega o fio da meada sem querer parar de ler por um só instante.

* El viaje del elefante - José Saramago - Ed. Alfaguara
Tradução: Pilar del Río**
** Li o livro em espanhol, mas adorei. Imagino como será ler em português - uma delícia. Não gostei muito da tradução da Pilar del Río. Por exemplo, ela usa a palavra saudade no livro e na língua hispana não existe este substantivo. Existe o conceito de extrañar e o conceito de nostalgia, que remetem à nossa "saudade" mas não possuem exatamente o mesmo conceito. Enfim, detalhes que não diminuem em nada o valor do livro.

9.3.10

Nunca antes na história deste país

A gente já conhece o Marcelo Tas, um profissional multifacetado da TV e que hoje é âncora do CQC - Custe o Que Custar. E entre tantas peripécias, Tas lançou recentemente o seu livro com frases históricas e memoráveis do presidente Lula. O livro é curtinho, divertido e leve - e ilustrado!

Em
Nunca antes na história deste país, Tas segmenta o texto em dez partes, de acordo com cada papel que o presidente desempenha no seu dia a dia durante 8 anos de Governo: Lula Advogado, Animal Político, Comediante Stand Up, Economista, Filósofo, Marqueteiro. Metamorfose Ambulante, Ser Humano, Técnico de Futebol e Turista. Cada uma das facetas lulistas tem suas peculiariades e pérolas como uma que adorei: "Estou pronto para a briga. Também vou entrar no tapume", trocando tatame por tapume ao receber judocas brasileiros. Ou então, em visita à Antártida, no Polo Sul: "É a maior geladeira que vi na vida", hahaha! Nosso presidente é mesmo um personagem!

Obviamente que o leitor não vai encontrar somente as máximas lulistas. Todas as tiradas do presidente são comentadas de maneira apimentada pelo autor. E um plus: o prefácio foi escrito pelo José Simão, ou Macaco Simão, da Folha de SP, que tem um humor à altura da proposta de Tas. Inclusive, já no prefácio e na introdução o leitor dá de cara com frases engraçadíssimas como
"Minha viagem à Síria foi muito frutífera: começou em Damasco".

Enfim, livro pra um domingo à tarde, quando a gente quer relaxar e das boas risadas. E, claro, ficar por dentro do que anda dizendo por aí nosso presidente, que pode ser a anta do Diogo Mainard, mas inegavelmente é um ser folclórico e carismático. Só lendo pra crer!

* Nunca antes na história deste país - Marcelo Tas - Ed. Panda Books

4.3.10

O Rei do Inverno

Depois de muitos anos, reli O Rei do Inverno e confesso que me perdi um pouco no começo porque inevitavelmente o confundi com As Brumas de Avalon. Mas este, o primeiro livro da trilogia As Crônicas de Artur, do inglês Bernard Cornwell, parece ser o relato mais fidedigno deste personagem histórico e suas batalhas.

Quem já leu As Brumas de Avalon, vai sentir diferença assim como eu, porque os dois livros descrevem diversos personagens de maneira diferente. E, na minha opinião, O Rei do Inverno acaba sendo mais profundo que o primeiro, porque a história é narrada por um dos personagens - Derfel Cardarn - desde os primórdios do reinado de Uther, pai de Artur, e além disso é bem mais detalhada. Tanto que o lendário rei da Távola Redonda - por sinal não vi nenhuma citação sobre a lenda sobre 12 cavaleiros e sua távola - só surge quase na metade do livro e aí sim, começa a desenrolar uma saga de lutas internas entre os países que formavam a Britânia (atual região localizada sudoeste da Inglaterra**), e as guerras externas contra os saxões que tentavam invadir e dominar este território.

O Rei do Inverno também dá um enfoque maior às batalhas e às disputas daquele período. Obviamente, personagens como Merlim, o famoso druida e profundo conhecedor das ciências pagãs daquele tempo, e Morgana, sacerdotisa de Merlim e irmã de Artur, estão presentes e tem papel relevante no enredo. Entretanto, a narração de Cornwell me parece mais verossível e mais atada aos fatos hipoteticamente reais do que à fantasia.

O livro é bem denso, longo. Às vezes torna-se um pouco cansativo, com descrições bastante específicas acerca de locais de batalha, da roupa dos personagens, da vida pregressa de algum rei ou rainha que aparece na saga, mas O Rei do Inverno é um investimento válido para o leitor. Afinal o autor consegue mesclar muito bem a parte que podemos chamar de "histórica" e a faceta "lendária" do rei Artur - que na verdade nunca foi rei, até porque era filho bastardo -, com grandes doses de aventura, drama e até mesmo amor.

* O Rei do Inverno - As Crônicas de Artur - Bernard Cornwell - Ed. Record
** Não se sabe exatamente que região era a Britânia e os países que dela faziam parte. Na verdade, Artur era o defensor do reino mais poderoso e rico dessa região, a Dumonia.

9.2.10

O Símbolo Perdido

Pra começar, algumas considerações: a primeira é que Dan Brown é Dan Brown. Não importa se seus livros são fantasiosos, polêmicos, controversos. Ele é indubitavelmente o autor mais popular dos últimos tempos e até quem não é fã tem que admitir que seus textos são cuidadosamente escritos, com histórias extremamente bem construídas e amarradas, e embasadas em amplas pesquisas que envolvem temas curiosos e intrigantes.

A segunda é que quase ninguém sabe, mas Washington, capital dos EUA, é o destino turístico mais visitado do país - ao contrário de NY, como tanta gente pensa. Pessoalmente devo dizer que morei na capital americana por mais de um ano e nunca, nunca até ler O Símbolo Perdido, eu tinha percebido tantas coisas sobre a cidade como sei agora. Passei inúmeras vezes por diversos monumentos descritos no livro e nunca os observei como, seguramente, os observaria se ainda vivesse lá no dia de hoje.

Essa segunda observação é importante porque O Símbolo Perdido é uma ode à cidade de Washington; muito mais do que O Código da Vinci em relação a Paris ou Anjos e Demônios ao Vaticano. Toda a trama se desenvolve em DC e ruas, avenidas, praças, prédios, monumentos são como personagens com papéis definidos e que tem toda uma simbololgia relacionada com a história. Assim, como eu mencionei, quem não gosta dos escritos do autor, dos temas ou das tramas, vai gostar do livro nem que seja porque todo o texto é uma aula de história - bem estilo a la Dan Brown.

Em O Símbolo Perdido o leitor se encontra novamente (ou pela primeira vez, se nunca tiver lido Dan Brown) com seu herói, o simbologista Robert Langdon que voa até a capital americana atendendo ao chamado de um grande amigo, Peter Solomon - diretor do"circuito" de museus da cidade, o Instituto Smithsonian, e membro do mais alto escalão da Francomaçonaria.

Eis aí a outra ponta que é um chamarisco para os leitores: toda a saga vivida por Lagdon tem como base uma série de intrincados mistérios sobre os maçons, seus rituais e uma possível informação escondida em algum lugar da capital que, quando revelada, poderá mudar o curso da humanidade.

Talvez porque a Maçonaria seja um tema tão debatido e investigado por milhares de pessoas e talvez porque DC seja também um personagem do livro, Robert Langdon me pareceu um tanto quanto apagado dentro da história. Para quem descobriu tanta coisa em O Código da Vinci, aqui nosso protagonista mais pergunta do que interpreta. Aliás, na minha opinião, em termos de montar quebra-cabeças, a personagem Katherine Solomon, irmã de Peter, rouba a cena.

De qualquer maneira, O Símbolo Perdido segue o estilo do autor, com bastante ação, correria, assassinatos, e entre um ofegada e outra, uma mega aula de história, rica em datas, locais, personalidades envolvidas. Uma coisa a gente percebe: Dan Brown pesquisa de verdade quando escreve. Me parece que ele não é do tipo que vai no Google ou na Wikipédia. Seus livros tem conteúdo.


Obviamente o livro trata de temas maçons, mas não desvenda lá grandes mistérios. Por isso, no final eu fiquei meio pensativa, tentando entender algumas coisas, mas me dei por vencida porque nenhum maçom daria informações sigilosas para nenhum escritor - mesmo que seja Dan Brown. Meu pai, que é maçom, deu uma olhada nos símbolos desenhados, reconheceu vários, afirmou saindo pela tangente que algumas coisas procedem, mas no final das contas, não me soltou nada. Maçom não solta informação, pelo menos não completa e até onde eu conheço. Assim, mistério, mistériiiio não é revelado, mas a trama é envolvente. Vale a pena demais dar um conferida!


* O Símbolo Perdido - Dan Brown - Ed. Sextante
Tradução: Fernanda Abreu

26.1.10

A Senhora do Jogo

A Senhora do Jogo é uma espécie de continuação de um dos clássicos romances da literatura, O Reverso da Medalha, de Sidney Sheldon, e narra a saga dos Blackwell, uma das mais poderosas famílias americanas. Não cheguei a ler o livro que deu origem à continuação, mas mesmo sem ter lido o primeiro é possível pegar o ritmo do segundo.

Para situar, depois a morte da matriarca dos Blackwell, a dominadora Kate, iniciam-se as disputas pelo controle do império que tem braços em diversos países. Os potenciais herdeiros que devem continuar o reinado da bisavó são os primos Max Webster e Lexie Templeton, cujos sentimentos mútuos oscilam entre ódio e amor, medo e desejo de vingança. Enquanto ambos se preparam para entrar em cena da melhor maneira possível para assumir os negócios da família, nos bastidores desenrolam tramas sórdidas com subornos, tráfico de influência e até mesmo assassinatos.

O livro é intenso, com uma trama bastante amarrada. Entretanto, confesso que teve coisa ali que eu achei o maior exagero e nem no mundo de Sheldon fazem sentido. O comportamento obsessivo de Eve, mãe de Max, por exemplo, e sua capacidade de ter informações - mesmo estando meio louca e em estado avançado de senilidade - são inverossímeis. O fato de a mesma Eve ter o rosto deformado pelo marido cirurgião plástico e com toda sua fortuna não conseguir encontrar um Ivo Pitanguy para reparar os danos também me parece um pouco fora da realidade. São detalhes que não fazem sentido... mas fazem a diferença diante de um leitor com um senso de observação apurado.

Acredito, inclusive, que esses deslizes aconteceram porque o livro não foi escrito "diretamente" por Sidney Sheldon, morto em 2007, senão a partir de um livro seu, O Reverso da Medalha. É que a "co-autora" de A Senhora do Jogo, Tilly Bagshawe, era uma fã de Sheldon e foi convidada por ele para continuar a escrever a saga. Obviamente ela alcançou seu objetivo, inclusive incorporando uma linguagem característica do mestre. Ressalvas apenas para o que mencionei acima: certos aspectos que na minha opinião não correspondem com a realidade.

* A Senhora do Jogo - Sidney Sheldon e Tilly Bagshawe - Ed. Record
Tradução: Michele Gerhardt